Eu queria que ela tivesse agido mais friamente e que tivesse desconsiderado cada palavra. Eu queria que ela não tivesse feito carinho na minha cabeça, que não tivesse rido e me entendido, não tivesse me abraçado, não tivesse continuado. Mas ela fez tudo tão delicadamente importada com meu sentimento, e fez agradavelmente tentando não me deixar constrangido. Se foi o lugar, o riacho belo e cristalino, a areia clara, a floresta pouco afastada, as enormes árvores e o clima, que a inspirou a entender e se importar, não sei, mas na grama que estávamos sentados olhávamo-nos de vez em quando rindo e evitando-nos, eu contei o que sentia, com o coração na mão que escorregava ameaçando cair no chão das minhas mãos suadas e tremidas. Eu disse. Que estava apaixonado por ela. Acabadamente ali, eu me rendia a um sentimento fugas, me libertava da vergonha, com coração num aperto súbito, disse.
E agora eu pergunto por que ela não me beijou, não me levou para o meio do mato e passou a mão em todo o meu corpo, não me olhou maliciosamente nos olhos, não me beijou com força, não me tocou. Porquê vem na minha cabeça porque não compreendo de onde vem tanta gentileza e atenção, eu sei que ela não abriria mão da religiosidade dela, nem cairia em pecado outra vez, porque antes saía a beijar lábios de homens e fazia com prazer, e ainda hoje recebia declarações dos outros e ainda era assediada por estes.
Por favor, não me trata desse jeito, não me entende, diz que odeia e que a nossa amizade foi só mais um momento da vida, diz que me odeia e põe fim nisso, não faz nada de bom, me chama de pobre coitado que senti isso. Acaba-me. Vai achar teu caminho que é longe do meu, procura tua terra e vive nela, porque nunca haveremos de juntar as nossas, nunca haveremos de ser um. Eu quero que não rias mais para mim, nem me dirige uma palavra, eu quero que não me abraces, eu quero que não me ligue, que não me encontres, que não veja em mim amizade, que não aperte minha mão, que não trate bem, eu quero que não me considere, porque sou fraco, não saberei olhar para tua face sem rir serenamente, sem que meus olhos brilhem, sem que eu sue, sou fraco quando te vejo, quando sinto teu cheiro, quando imagino tu em minha mente, sou um pecador quando estou perto da tua sanidade, da tua santidade, nem sei ao certo se quero o paraíso quando vejo tua cara de curiosa, nem sei se quero de verdade a verdade que sempre falas, eu não sei o que eu quero quando te vejo.
E ainda diz que quer me ajudar a sair desse poço de tentáculos com espinhos que a qualquer movimento sou machucado, eu tentei ser amigo teu, teu companheiro, mas tu não ajudas, tu nem sequer mantém distância, pois deita tua cabeça minha perna, encostas teu antebraço no meu, faz graça, tu és inocente demais e nem percebes nada. És pura no que fazes e vê e eu sou impuro quando penso em ti. Tira-me dos teus planos e continua tua vida, continua tua estrada, na tua perseverança.
Eu pensei que seria um alívio emocional contar a verdade desnuda, pensei que ao dizer “eu estou apaixonado por ti” faria as coisas mais fáceis, eu pensei que seria até mágico. Não foi, pois no momento parte de mim dizia “beija-a”, “abraça-a”, “a deixa chegar mais perto” e outra dizia “Estais vendo? Não é melhor assim? Todo mundo no seu respectivo lugar, fazendo afazeres corretos”. E eu tentando me alinhar a uma verdade.
Não deu certo porque eu estou aqui, tentado me entender, tentado descobrir solução para um problema de nuance amizade/amor, eu estou tentando achar resposta para um sentimento que perturba até o melhor dos dias, que acaba com minhas esperanças, que me tranca num porão úmido e fétido, que me isola do resto palpável, que me interrompe quando tento produzir, eu sou o mais afetado nessa história sem alinho, eu sou o que vai para o canto chorar, eu que fico jogado no chão, eu que reflito sobre o futuro, que sofre com expectativas, sou eu o que se segura quando quer beijá-la, sou eu o que ouve as negações que ela diz, eu que escuto a voz, eu que sinto o cheiro quando a abraço, é em mim que dói quando chego em casa e não posso mais vê-la, sou eu o que tenta fazer força para tirar fora, sou eu que tenho que dar meu jeito com esse sentimento, e sei que ficar reclamando sobre não vai dar em nada, e que ninguém vai ouvir e dizer que vai tirar para mim, essa lamentação vem porque não sei lidar gentilmente com a paixão e nem inteligente com o amor.
Eu queria... Eu queria tanto, da vida, dela, dos momentos, dos beijos, dos aconchegos, eu queria tanto, e se mais pudessem me dar, mais eu receberia e mais pediria, porque são vontades que não descansam nem nos sonhos. Eu quero antes que o sol de despida e a brisa passe, antes que o universo envelheça eu a quero. Antes de tudo eu ainda a quero.