(Este texto é continuação de “Dos Infláveis”)
Estava ficando velho e ai esquecendo-se do que gostava, dos sorrisos que dava ao fazer o que de coração sincero antes fazia, da satisfação de voltar pra casa cansado por ter trabalhado quase incansavelmente no que o inspirava, da seriedade que tomava ao começar, e da forma afável que tudo isso vinha a si, como um encontro perfeito de idéias similares que em progressão vão continuando segundo após segundo, minuto após minuto, hora após hora, até que os dias se encham e seja ele mesmo o que sempre quis. Mas o bloqueio de fluxo. O bloqueio de fluxo. Bloqueio. Porque de fluxo são feitas as coisas, de uma forma tão genérica como a criação, de uma forma simples como a transito de energia que sai de um lugar, guardada pelas propriedades de onde estava armazenada, até um outro, com propriedades tão diferenças e tão semelhantes, e mais outras e outras, e outras. Mas o bloqueio. O bloqueio de fluxo. O que naturalmente explode como uma represa insustentável pelo peso acumulado da água. Porque nada pára. Nada. A estaticidade é um momento efêmero que cabe na razão em vê-la ali porser visível demais e só.
Pois, agora, no sol morno, olhava o acontecer do dia. Suspirava vazio. Suspirava por era a última lembrança do necessário. Queria arrumar as malas, com as poucas roupas que tinha, e sair dali, porque estava tão farto, numa viagem como presente dele para a sanidade que ia esgotando. Esgotando. E esgotando. Das vezes que esteve à beira de um ataque de gritos e loucuras, sorriu. Sorriu para mostrar a identidade do que queriam ver. Sabia da forma exata o que as pessoas queriam ver. Sabia exatamente como deixá-las confortáveis, como tratá-las da forma que mereciam, pois via através do que a direcionava, os olhos eram bem claros em mostrar isso, e de como se expressavam era quase que confirmador, mas sabia isso intuitivamente, não tinha um domínio de trazer a uma classificação exata das poucas horas que passava perto das pessoas, até porque cria em si que eram todas cheias das surpresas agradáveis e desagradáveis dos humanos, e não classificava a esse ponto por que não necessitava, se com aquilo pouco conseguia tirar e recolocar de volta o que via nas pessoas com quem estava, não haveria razão de classificá-las num papel e marcar características importantes, das histórias importantes, das expressões importantes como um terapeuta.
Esgotava-se com as responsabilidades que sabia que tinha para a importância que dava a esses seres os quais amava solicitamente, solenemente, diria. E por entender e por estar tão claramente essas intenções e respondê-las quase instantaneamente estava como numa pedra a esmagar-lhe a alma - ao envelhecer essas associações vão se tornando tão enraizadas que uma hora não se sabe mais aonde cortar o que do lado veio e misturou-se por associação. Sim, por essa vulnerabilidade estava como a deixar várias e várias e várias partes de todos os que amava a entrar dentro de si próprio - Mas isso não é amar a si, diriam. Estava numa sobrevivência. Numa sobrevivência onde o acaso é uma partícula fértil de disseminação de idéias, valores, tradições para lidar com. Lidar com o acaso seria a razão de tudo. Tudo mesmo. E dessa forma genérica vai-se partindo para o particular até que quase esqueçamos de onde realmente veio a vontade e a força em lidar com o que envolve sentimentalmente o agora.
Lidar com o acaso. Ponto. Achamos nossas respostas. Ou parte delas, porque a entendia também da forma que a humanidade lidava com isto. E das criações absurdas que possuíam. Não queria entrar no mérito da religião porque tinha já tentado, foi a cultos, orava, lia o que deveria ser lido, fazia promessas, mas isso não deletou de dentro de si a inquietação de ter que lidar com diversas questões filhas daquela. Não sabia que tinha lidar com o acasom, na verdade. Não sabia. Achava que estava nos sentimentos. Lidar com os sentimentos que o abatiam, e com os pensamentos que pesavam tanto. E assim, estava atônito!
Deveria, como ouvia sempre, render-se logo, largar o orgulho e tomar de volta as religiões. Sim. Não, não queria. Observa a armadilha que se tornava deixar tão exposto e vulnerável a essa idéias, se permitiam tanto que hora ou outra estariam escondidos por tantas regras, regras e mais regras. Até que esqueceriam de si para finalmente estarem a par com o acaso. E pasme, não era que estava assim, mesmo sendo solto das religiões, desacreditado desses métodos. Estava envolvido nos outros! Tinha lançado-se a eles e agora preso. Preso nos formalismo, nas opiniões alheias, nas opiniões de uma sociedade supeficial.