domingo, 19 de outubro de 2008

Voando em tempo

Voei. Achado foi o tempo. Era hora de ver o que estava ao meu lado, as coisas na vida passam inconseqüentemente, parece que os dias correm e levam a consciência daqueles que se pões sobre o cargo pesado do destino, mas nesse vôo era já momento de enxergar - vê tua, vê logo como estas , novamente não te pões em tanto desafazer, levanta tua ordem no meio dessa guerra infindável, és mais um, e o provavelmente é maior naqueles que se deixam levar. Antes que as luzes sejam terminantemente apagadas e brilho algum não se veja mais, levanta e faz, do que refletes, uma luz que dói aos olhos negros, que expulsa a escuridão rodeante - as luzes ainda se esgotam, e se esgotaram aqui nesse meio de seres que vivem para completar ciclos de substâncias e átomos que vão e voltam.

Deitou-me de costas, depois de um tempo avistava o céu - eloqüência bem que te mostras num céu mesmo que escuro, as estrelas parecem que são nulas, queria mesmo é que fosses meu, assim como quero que os meus sejam teus e que de nossos esforços sejam formados na magnitude do que é viver e fazer do vazio um quadro negro de pontos brilhantes - levanto-me, teus planos foram anos e anos nesse estar.

Mais um nasce, e choro logo ouço enquanto converso contigo, porque não pára nada, mesmo que pudesse dar fim ao corrido, ali logo se formaria outro mostrar, não se pára , e parece que o tempo me pressiona, não há espaço para momentos pequenos, não há hora para enrolação - o próprio tempo me ensina que o ir é uma impressão que só pode ser lembrada e que o viver uma memória do que se pode fazer no ir passageiro. Às vezes me ponho numa cilada que eu mesmo invento, e choro pelos medos que cercam nessa armadilha brusca- -fecho os olhos, não consigo pensar - vem-me a consciência - medo e cilada que invento, criação torta que me faz desviver o ir.

Já era tempo de ver, ou seria atropelado pelas correntes da vida que transpassam sem dizer licença - meus dias, meu tempo acompanha a lembrança do ir, minha vida é mais uma impressão, meus momentos são mais uns que precisam ser vividos. Meu voar é mais uma luta que desfaço e faço no decorrer do ferir e ser ferido, no estar em ação e no viver em inação. Mais parece que a vida é uma impressão, num molde que crio para fazer da vivência uma forma provada de que não sou somente matéria que vai e volta.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Porque não sai comigo?

Tu pegas o que tu tens vivido no teu pensamento. 
Às vezes os humanos se enganam , 
inventam histórias, 
mascaram-se para não parecerem diferentes demais - 
mas no teu caso não há nada de diferente, 
há outras e mais outras libertas de si mesmas. 

Enconde-te por detrás do teu riso, 
tentas disfarçar a vestimenta por detrás do uniforme, 
mas um pedaço eu consigo enxergar daqui, 
e todos vêem. 
Renegam. 
Dói aos olhos e as mentes pensar que estais num mundo tão obscuro, 
tão solitário e perdido. 

Entraste no mundo cedo, 
eu bem sei, 
e  lá colocas tuas experiências passadas, 
podes viver aquilo o que não podes aqui. 

A sociedade é outra, 
estás presa aqui fora, 
estás perdida aqui. 

Não tiveste medo de ir lá, 
mas tens medo de sair com todas as tuas vivencias e nem te culpo - 
tu sabes viver sobre os pedidos de outros, 
sabes colher inferências das vozes, dos olhos, das ações, 
não te culpo porque tua responsabilidade com a sociedade é grande, 
não vives tua vida em parte, 
tentas fazê-la como querem e fazes bem, 
assim como tens entrado lá. 

Mas saiba de começo: 
caso queira fugir dali, sair de lá, 
talvez encontre-me como guardião de alguém que é novo. 
Aqui fora, nada soa tão bom, tão satisfatório, 
aqui querem tanto, 
chegam a te cobrar e te reprimir. 

Cuidado, 
não sai da lá só, 
aproveita enquanto estou aqui, 
na saída olhando, 
esperando que cada sombra seja tua,  
e os sons  já estão me perturbando, 
não espera a universidade, 
talvez nem ali possas viver o que queres. 

Tens medo, 
entendo, 
mas entendes também - 
o medo é um hábito, 
ele te impede de riscos,
 e quanto maiores forem as conquistas, 
maiores os são - 
não te priva, 
não te pára, 
assume teu risco, 
se não para toda a sociedade, 
mas para mim. 
Comigo não haverá problema.

sábado, 4 de outubro de 2008

A primeira

Num ato inconseqüente que fazia, numa imediatilidade que tinha, foi a quarto. Quartos obscuros de silêncios tontos, quarto de quatro, por dois, para dois. Eram cômodos calados, numa neblina própria que nascia nele, num vulto mecânico que era o momento. Nos quartos soltos sempre há, nos quartos calados sempre se ouve, e não como complementação de antonímia, não, sim, mas sim, nos de iguais medos, nos de iguais desejos.

E nos progressivos movimentos foram avançando, naquela inconseqüência, naquele imediatismo, mal tinham se conhecido, mal tinham se olhado, e do mundo corriam porque medos se afastavam, numa aceitação que serenava com os tempos, como as pessoas, como os pares, no quarto seguro, de lençóis seguros, de aconchegos calmos, de silêncios seguros.

Num vulto grande que era correr para fora, na minuciosidade deles, no momento deles, que só tinham para eles, porque o mundo fora tinha sido uma escolha, uma idéia, uma vaga impressão da realidade que buscavam, mas tinham deixado de lado – no momento que é dar, que é receber, no momento que é fazer.

No reflexo distorcido, como quem bebe álcool e vai desapercebendo, tentavam visualizarem-se, em toques rápidos, de vez em quando desacelerados. Foram na busca única que é procurar o orifício, numa luta que é estarem se descobrindo, mas como era jovem – juventude que não espera o tempo e que se põe na situação tão ocasionalmente, perdendo-se em poucos planos, em pequenas idéias, e essas voam, e se alguma tentou pousar, foi levada pelo vento do meio, mas aqui já estamos na situação, e de lamentações já bastam, de reflexões é o que sobra.

Deitaram-se juntos, mas antes, nos beijos, estavam em pé, tirando roupas dos corpos, preparando-se em calma dispersa, e olhavam se deitados, no escuro falado, no escuro sincero, eram olhos negros que cintilavam em reflexo da luz desconhecida, mas as esferas negras viam-se e beijos novamente se deram, porque momentos passam, desejos levam, lembranças ficam, e ainda sim podiam tocar as pontas dos dedos as orelhas, a face, a boca, e sem muita divagação achou-se o buraco - cozy, quente, despreparado -, e o do pouco que ficaram em um, pouco mesmo estavam, relaxaram depois, caíram depois.

E inocência da jovem, na inocência do olhar que pedia arrego, logo de início, agora pedia a paz de, depois de ter feito tudo, não sentir culpa, mas passa, o escuro passa, e logo estarão deitados lado a lado, abraçados, seguros em si mesmos, no conforto de ter pele sobre pele, sem roupas, sem medo, e nessa tranqüilidade aproveitarão até a hora que o mundo os chamar, mas por enquanto podem olhar um para o outro e falarem, Me promete que não me deixarás por nada, mesmo que eu esteja para baixo, me promete que eu ainda verei sol e isso vai ser contigo, me promete que teu abraço continuará forte e quente e teu beijo bom, me promete que não vai me deixar sozinha. Mas a pessoa olha com cara de arrogância para a menor e não retruca, fala para consigo mesmo como quem fala em triunfo no final de tudo, Acalma-te, mal sabes da efemeridade disso tudo e já vai criando muros, construindo alicerces, lançando expectativas, mas saberás o que é o tempo e o que é amor, e o que é isso que fizemos, no tempo distinguirás maturamente teu plano, ou a ausência dele, nesse romantismo que passa desapercebido tem lugar tomado pelo resto, saberás mais tarde, mesmo que o hoje seja o sofrimento de aceitação; e o dia levanta, a luz dança e sobe pelas frestas da janela, da cortina, pois já é hora de levantar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

No ir

Aos altos céus eu olho com força de quem pode ver acima razão elevada dos momentos os quais doem aos corações terrenos, mas num olhar que vê que a natureza simplesmente se pôs assim, e assim devo aprender com ela, numa intensidade que ora faz cair lágrima de meus olhos. Eu paro para compreender, não dá, os tempos correm e levam o que meus pensamentos montam - meus quebra-cabeças são humildes para o que me cerca. Num enlevo de praxe, num enlevo que se propaga em tantas situações, que vão e vem, e oh, nem sei dizer se são, nem sei ao certo dizer para que estão.

Eu corro às vezes de mãos atadas, tento achar desenlace nos simples dias, tento ver formas sobrepostas, tento sempre - uma visão obscura, bem escondida, agora me foge aos olhos, mas hei de ver assim como o sol brilha aos olhos sensíveis. Nos altos céus me projeto, coloco ali, por vezes, todas as minhas expectativas, e as minhas frustrações jogo no chão, que elas sofram a ação do vento, e numa erosão progressiva que se transformem para num futuro servir.

Ando de mãos abertas, não quero me dispor a sofrimento de não aceitar o que pode ser aproveitado, várias vezes fugi como quem foge do medo, e espera a sombra dele passar, tenho preferido riscos e tenho ido, ora a dor me acerta cheio, ora a dor me mostra que me auxilia a crescer.

Ponho-me de costas - vezes eu não consigo enxergar, e nesse não ver me perco e sinto que minha certeza é um vento, mas aí me prostro, ainda de costas, num orgulho de não aceitar a cegueira e de não poder fazer nada - numa dor que corrói interiormente. É a perda no ir, e vai como a neblina, que acorda densa e, pela temperatura que eleva, sai quase despercebidamente - e, nessa sinergia, lágrimas escorrem do meu rosto.

Vais deixando brecha, vais deixando a lacuna que preenchimento não terá, era tu que estavas, era tu que ficarias. Foste como quem não se importa com as faltas, foste como quem escolhe ir deixando sofrimento, foste por ir, e no teu ir viverás tu só. Rebentaram-me as forças, não sei lutar sem ver teu rosto, não sei continuar sem agarrar teu braço, não sei preencher sem te ter por perto, por isso deixo que a lacuna se encha de sangue, e em dor seja cicatrizada vagarosamente, escorrendo em sangue, escorrendo em plasma, decerto as lágrimas fluirão - é o perder - olha, se ao ganhar-se um perde-se outro, ao perder isso ganho isto - minha vida que quero viver ao lado de quem sabe escolher e desta escolha manter-se em decisão.