[cap. 4 ou 14]
Se correu, foi em velocidade mais lenta que a dos pensamentos escorrentos sobre si. Nas roupas masculinas, no constrangimento que poderia ter ao ser avistada por alguém que estivesse rodeando as proximidades, mas, considerando o espaço e o tempo, não passou por problemas tão humilhantes. Mas dali saiu, e, se aos passos, lentamente foi tentando organizar cada pedaço disperso na cabeça, devagar para classificá-los, devagar para separá-los, esforçosa para ajeitá-los.
Decerto haveria incertezas sobre o que poderia ser ao voltar a encontrar Luis, se o olharia nos olhos, ou ainda, se existiriam sorrisos intimidadores. E organizando cada pensamento. Seria Marcos uma lembrança constante? Ou calá-lo-ia aos sons dos beijos com Luis? Continuariam os pensamentos a perderem-se na digressividade e encontrarem, na vasculhação eterna, os sorrisos que eram ser mais dos um simples enrijecer de lábios? Estaria a relembrar a estaticidade do primeiro dentro da caixa envernizada?
Se continuasse a prender-se nesses momentos, que de passados já estavam se indo, não estaria aproveitando o que tinha se dado como solução: uma fuga inconseqüente. E isso a reavivou, calaram-se os murmúrios e os devaneios foram mais repensados, considerados uma experiência amenizada. Não tão magicamente, mas nos passos calmos que marcavam a noite, nos carros tímidos que atravessavam vez ou outra as ruas cálidas, na visualização da paisagem apagada, nos risos que dava ao observar os trajes que vestia, nas respirações que realizava, no silêncio que chegou pouco depois, e foi colhido pelo ar que concordou com tudo, e, no mais tardar, com mais experiências que viriam.
Apareceu no apartamento no com cara de quem poderia ter regido melhor. Foi bem acolhida pelo rapaz sincero nos beijos, esperava-lhe um jantar, numa mesa simples, preparada para almoços solitários, para jantares inexistentes, para desjejuns a dois, e só. Mas a comida cheirava bem, preparada por ele mesmo, desprezante das comidas a telefone, era caseira e de sabor, não duvidada fosse pelo cheiro. Luis a viu na soleira da porta com quem não queria nada demais, a não ser um simples olhar de afago, ou um riso, tão sóbrio.
- Vem. - disse. Nara levantou a cabeça vagarosamente, e havia, com a certeza que me disse no momento, uma simplicidade que já estava falando que o que tinha acontecido tinha sido, e só, um eventual descompasso. Aproximou-se da mesa e sentou-se, olhou no rosto e o encheu-se de riso puro, corou-lhe as maças, abaixou a cabeça, visualizou o prato e disse:
- Parece muito bom.- levou o garfo a boca e mudou a expressão enquanto saliva dolorosa enchia-lhe a boca, e completou: - Realmente está.
Queriam evitar qualquer conversa a respeito do acontecido, já tinha bastado as expressões, as telepatias, e tudo mais que puderam fazer sem o auxílio da palavra, mas Luis não evitou citar os trajes, estes que foram figurino de exposição urbana de Nara pouco tempo atrás.
- A gente vai na loja amanhã. As roupas devem estar confortáveis, mas não tão bonitas.
- Ah, eu gostei.- e riram da ironia.
- Não te preocupa com nada, a gente dá um jeito.
- Uhum - concordou, olhando um pouco abaixo dos olhos que antes descobria.
Terminaram de jantar, lavaram a louça juntos, falando um pouco acerca deles, um pouco de histórias recorrentes engraçadas, e mais um pouco. Preparam-se para dormir, desconcertados com o dia, porém mais aproximados, a conversa falada continuava sendo um jeito inocente de colocarem-se mais a conhecer. Nara foi ao cochonete fino com um travesseiro confortável, e Luis, talvez mais esperançoso por uma reconciliação vivaz, na sua cama, que era de casal, mas não queria constranger a menina obrigando-a a dormir ao seu lado logo numa primeira noite. Tentando dormir pensavam mais ainda; Nara gostava dele, porque Luis seria um solitário sustentável, tinha havido muita ofensa pelo dia turvo, seria mais normal o amanhã depois de acordado, conseguiriam esquecer e pôr para frente planos aos desejos, esqueceria Marcos hoje, abandonaria passado por uma, acreditaria em mais, estariam no mesmo barco, seria esse barco furado, e tantas outras questões que nunca ninguém se pôs a contar, pois qualquer desses cai na incerteza ao numerar um pensamento enquanto este se mescla com o sono vindouro que mais parece um pequeno cansaço do que um sono que duraria horas, e inesperadamente somem os pensamentos do consciente, calando-se para ouvirem os que foram ouvintes atentos durante o dia.
Acordaram. Não queriam levantar se da cama ou do cochonete, no caso de Nara. Mas ficaram parados. Olhando para o teto sem dizer palavra alguma. Nara fechou os olhos novamente e por alguns minutos ficou a pensar no dia que viria, o que seria desse dia. Ao abrir os olhos, viu que Luis a olhava, com cara serena, despeço na beleza que a garota possuía e riu-se mais uma vez com riso sereno, sincero e matinal. Nara não deixou retribui-lhe tal expressão e gostaria, por um momento calmo, estar ao seu lado, disposta ser abraçada por ele, acatada pelo calor que era estar próximo do rapaz. Mas calou-se para si mesma e o viu levantar da cama ir ao banheiro.
Ao sair do banheiro, foi à cozinha, preparar algum café, já era hábito cafés a dois naquela cozinha, porém só cafés , como foi dito antes. Durante a habilidade de Luis ao preparar o alimento que os satisfariam pela rápida manhã, Nara apareceu com cara lavada, sentou-se na mesa e o observou fazendo o trabalho. Ele estava sem blusa, e isso era o que enchia os olhos, detalhar mentalmente cada pedaço da barriga nivelada, mapear o braço ágil do garoto, o leve bronze que ameaçava a branca pele e o peito, acompanhado do peitoral, e "hum" gostaria de deitar naqueles peitos, afagado pela misericórdia de um garoto simples, sem tantas complicações, não tão aventurado em descobertas como o outro.
Serviu-lhe o café, na simpatia que não o deixava, e serenamente, pois esse adjetivo incessante não me para de martelar quando é falado no sereno rapaz, disse "Bom dia",
- Bom dia. - completou Nara ainda dispersa nos antigos pensamentos.
- Como foi a noite? - perguntou a pergunta de todos aqueles que são anfitriões, preocupados, ou não, com o bem estar dos hóspedes.
- Foi muito boa. Obrigada pelo acolhimento. Você não faz idéia do que é estar assim... - Luis nesse momento fez cara de quem gostaria de detalhes esclarecedores e que gostaria de poder ser mais presente na nova vida de Nara, porém ela o interrompeu das palavras não ditas: -... Meio solta pelo mundo.
- Ah eu sei sim.- E Nara não quis ser hipócrita e perguntar-lhe o que era estar solto pelo mundo.Mas ficou com isso na cabeça.
Deixou o pensamento preso enquanto colocavam a louça na pia, enquanto Nara se aprontava pra ir a loja com roupa de chegada, pois não deveria, poderia se possível, mas não, ir com as roupas largas, frouxas e desdenhosas do garoto; enquanto escovam os dentes, sendo que Nara, não havendo problema algum por Luis, usava a mesma escova do hospitaleiro; enquanto iam ao carro, enquanto entrava num enorme prédio lotado por lojas bem arrumadas e chamativas, aí sim, Nara deixou que os pensamentos voassem para que pousassem as variedades existentes.
Encantamento é o que enche mulheres quando se vêem dentro do lugar, e se , e não só se, tiverem dinheiro disponível para colocarem nelas a alegria de estar mais equipadas para as manhãs, as tardes, as noites, quando querem ser mais do que um belo corpo, mas um belo corpo numa bela vestimenta. Ali, o gosto de Nara foi desafiado pela variedade já citada.
Mas foram numa loja e de lá trouxeram umas calças bonitas e um riso de satisfação de Nara, e numa outra em blusas estavam boas e baratas, e em mais uma, pois coube-lhe bem o vestido amarelo, e mais noutra, pois precisa de acessórios, e noutra, que só Nara entrou, Luis, ficou a espreita desdenhosa, não era bem vistas mulheres comprando suas roupas íntimas ao lado de um rapaz; o confundiriam com um casal maníaco por fetiches, embora nem casal fossem. E mais numa loja em liquidação, valeria a pena entrar mesmo que somente para ver as ofertas. E saíram desta, Nara ao porte do sorriso que de tanto já dizer satisfação, disse agradecimento. Com o riso e os olhares cheios de gratidão puderam-se ver mais um pouco; aproximaram mais um pouco, detalharem-se mais um bocado, abraçarem mais um tanto, mas não beijaram-se. Não se tratava de uma garota que foi conquistada pelo poder de compra de um jovem rapaz ou pelo valor que ele possuía na sociedade, mesmo que este fosse um engenheiro bem pago e solteiro.
-Muito obrigado mesmo – disse Nara com júbilo disfarçado no tom de voz que gostaria de ser mais jubiloso. Andavam paralelo ás lojas, ainda, de vez em quando olhando para umas vitrines.
- De nada, não se preocupe com nada disso, tá? Esqueça qualquer problema. - disse Luis, na bondade que acreditava inexistente nas pessoas do mundo quando encontrou Nara na estrada. Olhou para o machucado que já tinha se aquietado mais na pele. Estava prestes a puxar um novo assunto discutivelmente produtivo quando, de um pulo rápido e habilidoso, entrou numa loja e tentou se esconder de alguém. Luis estranhado com a situação a seguiu e a encontrou desconfiada.
- Mais o que foi?
- Nada é só uma velha história?
- Velha... e viva?
- É um garoto lindo, mas só as garotas entendem o porquê. - dizia toda estranha.
Mas depois de o perigo passar, foram ao supermercado comprar escova para Nara e comida para dois. E deixaram passar o episódio estranho. Voltaram de carro para a casa, com várias palavras comentadas da manhã rápida, e outras como as de Luis dizendo que precisava ir ao trabalho naquele momento, perguntou se haveria problema para Nara de se virar sozinha, respondeu que não, e completou dizendo que tinha se atrasado a manhã inteira, mas que arranjaria jeito de justificar.
Parou na frente da casa e não puderam evitar um beijo rápido e inconsciente como se conhecessem fazia semanas. Nara entrou em casa com as compras, e os pensamentos sobre o rapaz, que tinham nascido no início da manhã voltaram a questioná-la. Porque haveria um homem desses, a solta pelas ruas, bem por se próprio e solteiro?
Pensou ainda no outro menino que viu, lembrou-se dos traços, mas não era nada para a dúvida que a perturbava sobre a procedência indigna e similar de Luis, ficou a pensar.
terça-feira, 8 de julho de 2008
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