Eu a encontrarei amanhã.
Porque fantasiei o que sentia e deixei que o tempo fosse levando, esperando que uma ventania arrastasse para longe o sentimento que deixei nascer semeado de inocência. Mas hoje foi diferente, muito diferente. Depois de ter contado que sentia verdadeiramente um turbilhão, ela foi muito calma e disse que se estivesse ainda no mundo faria diferente, me beijaria, ficaria comigo, sem ver a longo prazo relacionamento nenhum, e é por isso que não fico me instigando a amá-la mais, para ela bastaria uns beijos e uns amassos, sairia satisfeita e eu incompleto.
Depois desse episódio, a resolução entrava em minha casa, eu a queria, mas a resolução dizia que bastava o querer e, que se eu parasse de chamá-lo atenção, ela iria embora e nem se importaria. Resolução arrumava a minha casa reorganizava de forma simples, descomplicada até no dobrar e guardar em caixas os sentimentos mais difíceis, e ia devagar, com alinho, deslizando sobre minha casa com elegância finissimamente só dela. E anunciava um fim, fim da solidão, fim do sofrimento, das lembranças, devagar, anunciava boas novas e o movimento todo me enchia de gratidão, de felicidade que é estar independente sentimentalmente de alguém, aquele aconchego de poder se jogar no sofá e aproveitar o espaço grande, não apinhado e confortável.
Mas ela foi a minha casa, tínhamos combinado no dia no dia que eu falei do que sentia, e era desmotivada a conversa, para um encontro amigo e destemido, desapaixonado desligado de más intenções; isso pensávamos.
Ela ficou me olhando, talvez admirando o momento, e me perguntou:
- Posso fazer um teste?
- Que teste? – e transbordava malícia dos olhos dela, no momento eu desconfiei.
- Não posso te dizer.
- Porque não podes me dizer sobre o teste?
- Porque seria ofensivo pra ti.
- Mas por quê? Teste? Que teste?
Ela calou-se e desviamos o assunto, eu fiquei sem entender, mas martelava em minha cabeça que o teste poderia ter algum contato físico desafiador, e que fique claro que não queria afetá-la na vida que ela buscava encontrar. E não conseguíamos nos olhar, não conseguíamos disfarçar sentimentos. Ela já havia me dito que não entendia porque tinha me apaixonado por ela, uma pessoa boba, sendo que não entendia como era bom conversar e estar junto dela, numa paz sem palavras e sem adornos, num deleite fagueiro, onde só os sorriso dela bastam. E agora era a hora de nos questionarmos sobre as palavras nossas, e mentalmente sermos desafiados pelas nossas vontades.
- Queres o teste mesmo?
- Mas que teste?
- Não vou dizer. Queres? – Eu me enchi de raiva, parecia que ela não entendia que tudo que pedisse eu faria sem pensar, mas raivosamente perguntei:
- Que PORRA de teste é esse?
- Não sei.
- Tu não vai me dizer?
- Não sei.
Mais raiva entrou em mim, e ela me olhava com cara de pedinchona, que queria testar-me até o último segundo. E ela perguntou:
- Tu acha que tem alguma coisa a ver com beijo?
- Não! Acho que é algo mais leve. – respondi mentindo, a intuição já dizia que tinha algo a ver com beijo.
Calamos e ficamos sem palavras, meu coração começava a acordar de um sono leve e tentava se remexer, mas eu o acalmei e falava que nada de tão emocionante aconteceria, e o coração esperando ação para dar resposta. Eu a olhei nos olhos e perguntei:
- Esse teste vai machucar alguém?
- Não.
- E quais os possíveis resultados? Pra quê serve?
- Eu só queria saber se teu sentimento tá forte.
Mas como assim? Será que ela não tinha percebido? Eu abri-me, arranquei a idéia que causava aquela grande emoção eu a mostrei, ela viu que na idéias estava escrito “Eu estou apaixonado por ti” e será que não tinha entendido? Será que ele sabia o que aquilo significava?
- Lógico que meu sentimento ta forte!
- Tinha a ver com o beijo. Tu faria?
Pronto! Não sabia o que pensar, e se pensei foi só para dizer:
- Pra que tu queres saber se o sentimento tá forte ou fraco?
- Porque se tiver forte eu vou poder te ajudar e se tiver fraco vai ser mais fácil. E aí, queres tentar?
- Eu não sei se tentaria. Eu tenho medo, tu Sabe o que isso vai significar? O que significa pra ti?
- Pra mim? Nada. Eu só quero te ajudar.
Mas nesse momento eu questionei-me: ela vai se expor a essa situação e nada vai significar?
- E a tua vida?
- Pra mim nada vai mudar, nada mesmo, tu queres ou não?
- Como assim? Haverá correspondência?
- Sim.
- Não, me responde de novo: haverá correspondência?
- Sim.
- Tu sabes o que tu ta respondendo?
- Sim.
Aí meu coração disparava, eu tentava me nortear na situação mas tormentada, rápida e sem aviso, não deveria tirá-la da busca da verdade, nem afetá-la com questionamentos sobre a fé dela, mas o que seria um beijo, o beijo.
- Tu tens certeza do que tu ta perguntando? – Eu perguntei.
- Sim.
- Mas o que vai ser pra ti?
- Eu só quero te ajudar.
- Mas eu não vou ta te ajudando, eu vou te atrapalhar tua luta.
- Não, não vai.
- Vai haver correspondência?
- Sim.
- Depois do teste?
- Ah, não sei, acho que não!
- Como assim?
- Porque tu perguntas?
- Tu queres saber se meu sentimento ta forte? Lógico que ele está, aí tu vem com um teste pra saber e ainda diz que não vai acontecer nada depois? Presta atenção: eu disse pra ti “eu estou apaixonado por ti”, não bastou? Será que minha situação é incompreensível? Te coloca no meu lugar, eu estou suscetível, e tu vem com essa brincadeira, tu queres brincar com meu sentimento, porque isso parece uma brincadeira. Eu quero futuro e tu não pode me dar. Eu não quero ser mais um pra ti, e se tu me beijar lógico que meu sentimento vai ser forte!
Ela se aproximou de mim, eu fui em direção á parede e parei encostado nesta, ela me prensou com as mãos e perguntou:
- Será que o sentimento aumentaria?
Ela estava perto de mim, se distanciava dez centímetros. Eu senti a pulsação do meu coração, na minha orelha, na minha virilha, no meu pescoço e na minha cabeça.
- Pára com isso! – eu a repreendia com olhar sério.
- E se eu te beijasse agora?
- Pára. Pára com isso agora, tu não ta entendendo, olha meu coração, sente. – levei a mão dela no meu coração.
- Nossa ele ta batendo muito. E o que sente se eu fizer assim... – ela, ainda com a mão em direção ao meu coração, se aproximou a metade da distância anterior, e o coração disparava acelerado enquanto eu via a boca dela mais próxima da minha. – e o que tu senti se eu fizer isso aqui... – e deslocou o quadril para frente pude senti a vagina dela encostar-se ao meu pênis, tentei me afastar, não dava, a parede era o meu limite, virei a cabeça de lado e meu coração eu só sabia que existia porque havia um movimento louco dentro do meu tórax, ela foi aproximando devagar a boca dela da minha e quando estava perto de beijar, fechei os olhos, e desviou a cara e encostou a face na minha, e a ouvi perguntar:
- O que tu acha disso? – eu reabri os olhos.
- Se tu não fores ficar comigo te afasta agora, se fores brincar com o que eu sinto te afasta agora.
- Mas o que tu acha disso?
- Eu acho que vai ser danoso pra nossa vida espiritual, nós vamos sair arrebentados. – ela se aproximou mais ainda, fechei os olhos novamente, mais perto, pude sentir o hálito e o calor da pele dela.
- Esse foi o teste. – e se afastou.
Hã!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?...
Mas ô anestesia, ô alívio, senti o sentimento descer num ralo justo, escorria devagar e nós o ajudávamos, eu disse que seria danoso para ela e esta disse eu não faria, que estava certa do que queria e ainda me questionou perguntando que tipo eu era já que não encarava a verdade de ser mais puro.
Eu juro que não percebi, para mim, o momento, o que ela tinha feito era algo espiritual que me fez perceber o que queríamos no profundo. Mas que tipo de pessoa se coloca nessa situação e ainda questiona sobre minha postura? Graças á meu amigo, percebi que não, testes desse jeito eram mais carnais eu a fornicação em minha mente, que não tinha nada de transcendental, mas com uma dose, overdose, de tentação que fluía pelos poros.
Eu fiquei anestesiado. Quando uma pessoa quer desistir de um sentimento não promissor já é bom, mas quando duas querem, melhor ainda. Eu tinha negado e ela, ela tinha negado-me, seria a melhor situação do mundo, eu me livrando desse sentimento e ela me ajudando, e nós seguindo as nossas planejadas vidas, um para cada lado, vivendo um sem o outro, livre para si mesmos. Que nada!
Quando minhas certezas de acomodavam o telefone tocou.
- Oi.
- Oi.
- Como ta? – perguntei.
- Bem... – e inesperadamente – Eu deveria ter te beijado naquele momento.
- O que?
- Eu deveria ter te beijado, beijado a tua boca.
- Sério?
- Sei lá, agora me arrependo. – eu ouvia e não entendia porra nenhuma. Como ela tinha negado e agora choramingava no telefone?
- Como ta depois dessa situação?
- Sei lá. Eu to excitada. – a voz parecia incerta e receosa.
- Sério mesmo?
- Sim, eu deveria ter te beijado.
- O meu beijo é carinhoso. – disse eu. – E o teu?
- O meu beijo é quente. – e rimos juntos. – Sério, eu me arrependo. Posso aparecer amanhã na tua casa?
Eu não queria dizer não, mas tinha medo de beijá-la, e se ela quisesse fazer sexo, eu não transaria.
- Sei lá. – respondi. – Tu gostaria de ter me beijado?
- Sim, gostaria. - aí não sabia de nada mesmo.
- Seria problema se nós ficássemos abraçados na tua cama ? Haveria maldade?
- Sei lá – respondi, mas maldade havia na pergunta, que canalha!
- Posso passar aí?
- Acho que sim.
- Tu vai sair?
- Não, não, tu vens às quatro?
- Não às duas.
- Tá, então ta.
- Tá legal!
- Então tchau!
- Tchau.
Não sei o que fiz, não entendo o que falei, não procuro resposta para as razões questionadas, nada sei.
Eu a encontrarei amanhã.