Houve um dia em que chamaram-me para dançar, eu temido, desconfiado do ato, abusado de quem o fazia, neguei; por insistência, tanta, refiz minha decisão. Sair a dançar como os demais. Por que das danças saíram muitas histórias, que perdem-se nas fofocas ou são mantidas por estas, fiz, então, uma história.
Comecei tentando calar as batidas desritmadas e aceleradas de dentro, recompondo os eixos do meu corpo recém-descobertos do meu corpo, angulando pernas, descansando braços, trabalhando músculos, desmembrando passos, devagar, ao som da música rápida, aos gritos do que acompanhavam, na vergonha que senti ao notar que me olhavam. Normal, pensei. Não totalmente o contrário, corei-me de rosa, porque de amarelo, que é quase imperceptível sobre minha pele, não consegui, e fui a cadeira da mesa onde estavam meus quitutes fritos. Era o que me restava.
E veio a dourada bebida, sinceramente, na hora nem pensei nisso, mas tomei tentando tirar o desconcerto de mim, e, sem notar, enchia-me do líquido amargo o mesmo que de sem vergonhisse. Era o que me restava.
Desritmado – quem ligou? – fui ao chão sem atrito, deslizando sobre a música que pensava estar compassado, mas ali, destemido, já sem preceitos, sem rosas fisiológicas, despreocupado com o tempo, conseqüentemente com o lugar, e as pessoas. O que fariam? Se fossem rir, taxariam minha condição não sóbria, e isso me faz refletir os líquidos alcoolizados, o por quê bebi eles me faz pensar.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
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