quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

[Dois]

Família é mesmo um porto em que se não prestarmos atenção ficamos e perdemos o barco. Vamos imaginar o barco como uma viagem única, em que é mais importante conhecer novos lugares do que ficar vendo um barco passar.

A família de Vini tinha deixado o barco ir. Enquanto reclamavam da vida eles se esqueciam de aproveitá-la. O que era família para Vini naquele momento?

Não me deterei em família – é um assunto profundo do qual Vini passou a não mais se importar – mas como se vê um mundo sem a base sociedade.

É difícil se afastar do que fazíamos antes, é doloroso fazer o que não planejávamos, é desconfortante viver sobre novos olhares e ver sobre novos olhares, e o que fazer? Passar a vida toda em um vai e vem que só dá num ciclo doloroso? Não! Pensaria Vini diferente. Foi o que fez.

Chegou com uma galera conhecida por festeira se apresentou. Conquistou a simpatia deles e foi a uma festa.

De início começou estranhando, é como estava dizendo, uma situação nova que antes era desprezada é no mínimo desconfortável. ATente para a estrutura psico-social do menino, só! Viu um copo de plástico cheio de Martine olhou, admirou, pensou e tomou. Aos poucos foi sentindo-se leve, nada passava em sua cabeça, era um momento só dele, um momento a só consigo mesmo, todos ao redor desapareceram na festa. E via, ria.

Acordou viu que estava nu, ao lado uma menina nua. ”O que fiz?” perguntou para si mesmo; não saia resposta alguma, a única coisa vinda da cabeça era um latejar constante. Vestiu as roupas, saiu. Foi caminhando enquanto sua cabeça explodia.

Esse era o problema de Vini, ele sempre arranjava um modo ineficaz de resolver seus problemas. Sempre nas costas dos pais, sempre com uma desculpa esfarrapada. Chegou em casa, a viu vazia, foi ao quarto e deitou-se. Com a cabeça ainda latejando percebeu que o barco de sua família já tinha saído faz tempo, talvez um ano, todos estavam esperando um barco e nenhum se mexia para conseguir a passagem para um. Foi sempre assim – foi a conclusão de Vini.

O óbvio: perderia Vini tempo com uma família? Deixaria ele a própria família naquela situação? Continuaria sendo um bastidor nessa peça?

“Sim! O que tenho eu pra fazer?” Foi o seu penúltimo pensamento sobre a cama. Será que tem vodca aqui em casa?”

[Um]

Parecia mesmo que naquele dia haveria uma marca, um momento diferente. Algo como uma fa-
mília que aceita os erros de seus companheiros e segue em frente segurando firme a mão dos amados. A segurança que trás uma família é quase um paraíso quando se compara com a realida-
de que se vive. Há de aparecer uma nova forma de ver essa família.

E assim estava Vini no dia em que as discurções passaram de palavras que machucam e torna-ram-se tão reais quanto duras. Era sua mãe partindo, seu pai sucumbindo a um amor não reali-zado; pais que não souberam lidar com suas mazelas.

As relações humanas tão frágeis são como grandes campos férteis onde amarguras nascem e se reproduzem, onde cadeias de ódio vão se montando através de uma pequena hipocrisia lançada; poucos são os que semeiam um pouco de amor e perdão. Digo por que vivo e falo com a maior sinceridade que já encorajou meu coração: não o faço. A simplicidade de uma situação não é pro-porcional aos resultados quando se trata de palavras, até mesmo as pequenas trazem um grande e profundo abismo se não estivermos aptos a perdoar, seja uma ofensa ,seja uma maldição. Era
só guardar a gama de pensamentos e prestar atenção no que se passava Vini. Era só controlar as emoções e se deixar um pouco mais imparcial, se tratava de um casal normal, com suas lutas e com seus medos. Haveria alguém para lutar ali? Haveria alguém a dizer algo melhorável?Have-ria, tinha que haver.

Porque nos submetemos aos nossos próprios medos quando queremos crescer e com eles en-frentamos as nossas próprias fraquezas, é preciso, é necessário entender que não se trata so-mente de julgar mais, é necessário entender que é mais necessário se entregar e confessar do que condenar. É necessário pedir mais perdão do que condenar.

A cena: pais que não entendem que seus problemas não pertencem somente deles, mas da famí-lia. A traição aceita, por parte da mãe, três vezes seguidas era pressuposto de aceitação para u- ma quarta por parte do pai. Célia e João - um casal apaixonado que aceitou os desafios do casa-mento. Com o desafio vieram as traições de João e as reclamações de Célia. Tudo como uma
grande onda que surpreende os despreparados; pequenos problemas não aceitos, não resolvidos.

Vini contava com a sabedoria do pai e a generosidade da mãe nessas horas, esperava o apa- ziguamento por parte dos dois e esquecia-se que ambos eram seres humanos. Um talento que dava aos pais era que esses sempre lidariam de foram resolutiva com problemas. Um filho que olha os pais como um ideal a ser conseguido, ele acreditava que seguir os pais e conseguir o que os pais conseguiram era a felicidade. Sempre vendo os pais. Sempre tirando o melhor deles. Sempre o admirando-os.

Até que os sentimentos explodiram dentro dessas autoridades e fizeram de um matrimônio uma festa de adolescentes onde a qualquer hora se acaba um relacionamento. A mãe saiu, deixou a família, o pai passou a chorar. Não colocarei diálogos aqui - eles exprimem muita informação, e elas não seram necessárias nesse momento. Só o digo. Para um ser humano como Vini isso foi quase o fim da base mais importante até aquele momento para ele: a família. Se um dia tivesse uma não a gostaria daquela forma, não se contentaria com os problemas, não se calaria tão facil-mente. Sim, tentaria.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

“...por que há dias com sol em que me tenho me revelado composto e porque há momentos noturnos e nesse me mostro nu. De fato a escuridão adentrou em mim, prostrou-se. Diante do meu dia vinha a bonança, foi-se. Queria mesmo fazer da escuridão dia e do dia constante.”

“Porque há sol e lua, porque há dia e há noite. Porque há afirmação, porque há negação”

“Sempre houve aqueles antigos, deles vieram às instruções, que diziam, confrontavam. Até que ponto se abstém nisso?”

“E por que há escolha e que essa vem acompanhada de sua filha – a conseqüência. Pergunto-me tenho eu a luz ou a escuridão? A escuridão ou a luz?”

“Perturbação constante! Não vê que me encontro entre o sangue e a respiração? Não vê que a vida se vive? Afasta-te de mim, inimiga constancia. Levas o que quero de mim, derrubas as bases da muralha de minha coragem, devassa minha consciência. Levas o que é teu.”

E vivia Síncero. Menino calado para o novo, eloqüente para o velho. E se o velho se faz novo a cada dia, não deveria considerar-se feliz? A felicidade – curto tempo de alegria espontânea e só. Sempre na razão: o momento. Sempre na emoção: cadê o momento?

O meio exigente; calado para pequenas vitórias; exigente e hirto de causas, profuso de idéias a serem seguidas; idealização dos valores – complicações. Um fato: um meio, nisso deveria achar-se Síncero.

- O calo tem seu dono, diziam: não mexam, terminavam – dez minutos depois estavam a cutucar a ferida do pobre alheio.
E um dia houve um diálogo.
- O violino se toca, o violinista toca. E se o violino tocasse?
- Não se deve sentir isso.
- Pois não o sentes?
- Sinto o que é certo, o que é dito.
- E se não?
- Cala-te e consente.
- Como se diálogo fosse feito de silêncios.
- Cala-te.
- O silêncio me trouxe. Diga a ele, diga ao que me propõe a dúvida.

Nada houve. De certo uns murmuravam. A questão levantou o não-descoberto não acordado. De fato houve, houve aqueles que passaram a sentir algo nov. e o velho pois se a ser questionado.

***

Os minutos cessam como as dúvidas calam; os minutos correm como as dúvidas passam; os minutos retornam como as dúvidas nascem.

Eis a dúvida – perturbação entre duas inteligências.

- Negas o que senti?
- O sentir é reflexo. Olhas para o real, questiona-o.
- O modo de propagação, dizes?
- Digo o que o forma, as sensações precedidas de idéias.

***

“O que esperas de mim?”

“Dissestes o que tinha que fazer, atentei, vivi. Encontroei-te no oposto, segui-te; encontrei-me na perturbação, na solidão.”

“Atentei para o que disse como certo, vivi, senti. Como deveria senti não o fiz. Não o fiz.”

***

Outro diálogo.

- Se a dúvida te persegue, porque não abandonas. Porque castiga-te a ti mesmo?
- Abandonar a dúvida é aceitar o sol como o dia ou à noite como o dia;é fazer do violinista tocado ou o violino ser tocado.
- Decide. Perguntas devem ter respostas. Escolhe a tua.

***

“... como serena a noite, que por ela me apaixonei. Hoje a vejo como dia. Um dia claro situado numa noite. E o que é a noite se posso criar o dia?”

“A escolha foi: faço-me dia, não escondo a noite.”

“ Se seguisse o sol onde pararia? Nos mesmos ligares no qual aqueles que antes me disseram “ orna a tua cabeça com flores e não te apegas a coroa dela vem a dor, dela vem a doença, dela vem a desgraça.”

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

[cap. 10]

A representabilidade daquele caso ultrapassava as expectativas dos ingênuos; casualmente estava entre a decisão precedida de uma perturbada dúvida.A importância ultrapassava até para os mais aplicados, seja pela acasualidade, seja pela impossibilidade.Os fatos eram propostos na ordem linear, quase natural, mas horas apresentavam um elevação não esperada.A expressividade de ser, tão instável; as formas de se entrelaçar, tão novas; e todas as forças - que juntas -, tão inesperadas.

A vida nesse caso estava sempre foi - para os despreparados absurda, para os aplicados observadores surpreendente. Às vezes estava tão condizente, tão lógica que enganava a imaginação. Se importar como o óbvio é pressuposto de entender o surto não planejado. Um livro seria escrito se nos detivéssemos nisso.

A melancolia cerca as almas esperançosas, mas não preparadas; acolhe os carrascos de si mesmos; acompanha a quem se cala. A fuga desse sentimento é a negação dos requisitos acima. A possibilidade do sumiço sem uma força necessária é mediana, uns se entregam ao tempo outros se acostumam como o estado.

Enquanto caminhava de volta a casa ela se imaginava perdida e quase acabada. Muitas vezes pensou a si mesma dominadora do tempo, poucas vezes agiu para o almejado. A quebra dessa monotonia seria o fim?

Os sentimentos desencadeados a partir de todo o choque não a mantinha em equilíbrio. Como aquela construção mal alicerçada estava tão entregue. O desiquilíbrio se alojou naquele coração como aceitação do natural; natural para ela era o mais desgraçado. O equilíbrio idealizado não mantido e a constancia da não habitualidade quebraram as bases ilusionárias, afinal não só de pensamentos se faz um mundo realmente atraente porém colorido.

Talvez alguém no mundo a interpretasse, talvez alguém colheria suas lágrimas a as faria de regração às flores de um jardim de uma vida tentante.Talvez as forças a empurrassem para o alvo. Ironia do antes disposto!

Basta uma caminhada para a assimilação das vozes destruidoras da sanidade e da felicidade tão buscada. Basta à impassibilidade para isso.

E veio a chuva. Os pingos infectavam-na com melancolia. O estado: a clara amostra do interior. Quantas vezes a exteriorização do invisível passou despercebido aos olhos dos egoístas.

A atmosfera era propensa: o nublado do céu, as ruas vazias, os ruídos dos pingos de chuva. E Nara seguia da mesma forma. Um vazio era o que sentia depois de caminhar sozinha pelas ruas molhadas; significava-a solitária, sem alguém para compartilhar desgraças, sem alguém para contar alegrias; era como se fosse uma peça do quebra cabeça indiferente; era quase inútil, nem fazia falta.
Pensou em suas vítimas, tentou entender o que era o mundo delas; um nada perto do dela. Tudo o que pensava, o resultado real parecia tremendamente incoerente. A satisfação que sentia ás vezes; uma falta de algo. Não conseguia explicar o que acontecia dentro dela, não conseguia assimilar a realidade de modo racional. Tudo o que fazia era espontâneo demais.

Chegou a casa foi ao quarto, viu malas prontas, a casa arrumada; o quarto, porém, perfeitamente bem arrumado. Entrou no quarto e ficou por lá.
Logo abaixo estava sua mãe. Em seu rosto via se linhas de expressão estressadas, seu estado de mau humor enchia a cozinha onde se encontrava; não fazia nada. O fato era que a mãe de Nara era uma mulher sonhadora: sonhava com uma bela casa - possuía; sonhava com uma perfeita família, família sem erros, sem mácula alguma; sonhava com uma filha exemplar; sonhava. Infelizmente para ela, os sonhos não passavam de sonhos,esperava que o marido resolvesse o seu mundo colorido de idealizações. Na época de Nara o que significa uma mulher que idealizava e esperava dos outros a realização desse sonho? Amargura e estresse.
* * *

Um diálogo entre policiais:
- Viu o caso do garoto?
- Vi sim, por quê?
- Acho que a acusada não matou ele por legitima defesa, uma dúvida ficou no ar...
* * *

Nara desceu e foi à cozinha e encontrou a mãe no estado descrito.
- O quê que tem? perguntou Nara rispidamente.
- Ainda pergunta o quê que tenho? falou a mãe com arrogância desmedida.
- Qual é a tua mãe? Nara insistia, sabia que irritava a mãe.
- A minha? Nada dá certo. Tudo o que eu fiz; nada dá certo. Tudo é uma droga.
- Mãe não idealiza.
- Cala a boca, tu nem sabe o que é a vida pra ta falando desse jeito. Viveu quase nada.
- A experiência fala, e olha só o que ela recebeu, disse Nara - um súbito de ódio adentrou seu coração.
- Quer saber mais do que eu, é isso?
- Não Mãe, só vê se cresce um pouco, uma pontada de insegurança adentrou.
- Já cresceu o bastante foi?
- Deixa de ser idiota, disse a filha –Nara sentiu a insegurança seguida de insatisfação.
- Fala o que é ser idiota, desafiou a mãe - Nara sentiu insegurança novamente.
- É esperar que as coisas caiam nas tuas mãos, feitas por um cara perfeito que ai encher teus dias de muito amor e sexo..., Nara começava a se irritar profundamente.
- Hum!, ria a mãe.
- ... é acreditar que uma família é feita de pais e filhos somente e não de diálogos..., nesse momento a mãe de Nara fez uma cara " ah, é?"; ... é ter uma filha e nem ao menos perguntar como ela tá, se ela se fudeu, se ela fudeu, se ela é amada por alguém, como ela se senti bem na porra desse mundo, a mãe de Nara atentava com espanto.
- É pensar que as coisas acontecem por acontecer e que não fazemos nada pra conseguir - a irritação de Nara tornou-se excessiva e incontrolável.
- E você é igualzinha, disse a mãe de Nara triunfável enquanto ela e Nara viraram uma de costas pra outra, Nara saiu andando, a mãe ficou na cozinha, porém Nara interrompeu a saída virou pra mãe e disse:
- Mãe? A mãe virou; fuck off, um barulho de tiro foi ouvido por um policial do lado de fora da casa bem no momento em que esse ia apertar a campainha.
Nara foi rápida pegou as malas que tinha deixado uma sala a frente da cozinha, e saiu pela porta dos fundos que era um cômodo após a cozinha. O policial arrombou a porta da frente na terceira tentativa. Nara rodeava a casa pelo lado de fora; o policial vasculhava a casa, começou por cima, não encontrou nada, continuou embaixo e encontrou uma senhora alvejada em cima de uma, ainda pequena, poça de sangue a poucos segundos da morte. O detetive chegou perto dela para verificar se ainda estava viva é só ouviu da senhora:
- Cadê o meu marido?
Nara já estava relativamente longe de sua casa. Caminhava. Ela pensou na sua primeira vítima de assassinato, feita há pouco tempo, e no novo mundo proposto cheio de boas novas; já desenhado pelo destino.

FIM.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Último Diálogo[ cap. 9]

Como forma de se realizar o que antes pensava, ele veio confirmar; como uma sensação, uma forma humana; como algo que brota do nada e que enraíza; como se sentia; um sentimento, ou ademais vários; é difícil explicar o que era ou o que talvez como seria mas de fato os sentimentos alastravam-se profundamente.

Como compreender um sorriso que virou uma relaxada forma muscular? Como entender que um coração pulsante que fazia outros pulsarem se tornar parado? Como sentir uma mão que transpassava carinho e que agora estava gélida? Porque há tantas perguntas num momento desses? A realidade se torna mórbida, o mundo injusto, as pessoas leves traços ao redor, um respiro doído, as lágrimas um dos únicos escapes, uma abraço algo indiferente, um olhar evasivo. Um nada; ou talvez um tudo que não se senti.

De certo ninguém deixaria de se lamentar para chegar junto dela e lhe dizer algo que a confortasse, ninguém faria esforço algum. A fama dela naquele momento, e talvez por toda a vida , se mantinha como uma cúmplice de assassina.

O velório se mantinha naquele silêncio universal, horas havia prantos, horas havia murmúrio, horas havia o silêncio citado. Olhos sinceros batiam a pequena janela de vidro para o vislumbrar de um último olhar. O rosto era a única parte disponível para a apreciação, seu pescoço estava bem coberto para esconder a enorme marca causada pela tesoura. Os olhos fechados, a boca pálida, a aparência mortífera, o cheiro de rosas,os ruídos inconstantes, o ambiente úmido eram as limitadas formas dos sentidos.

Nara estava ali; estava porque não esquece os gritos de súplica da mãe de sua paixão, estava porque sentia a atmosfera centrada na morte; estava porque sentia o impacto da morte de um jovem. A impressão causada foi de que a vida, às vezes, fecha a cara para uma jovem existência e determina o seu fim. Pobre realidade pensava Nara, Pobre para ela, pobre para a família da vítima, pobre para os amigos de Nara. Pobre era mesmo para Nara que estava num funeral onde não e esperavam nem a desejavam.

O estranho começou a se manifestar naquele lugar. A atenção de alguns ali mudou da morte do homem amado para a hostilidade contra aquela ingênua menina. Começou com olhares repressores e depois com palavras murmuradas ao vento que mal diziam Nara e sua mãe. O velório terminou e começaram a caminhar Em direção a sepultura. O silêncio no caminho. Quando chegaram à frente da sepultura todos foram tomados por um sentimento intenso de perda. As lágrimas rolaram, os soluços não paravam e os gritos desesperados de uma mãe encheram aquele céu aberto. E descia o caixão para a terra úmida e fria. Ali jazeria Marcos. E começaram os diálogos para os crédulos ou para os céticos os monólogos cridos que eram palavras jogadas ao vento.

- Você sempre será meu rei.
- Saudades eternas.
- Acabou aqui, mas no meu coração não.
- Não o verei mais. Sempre o sentirei.
- Meu Marcos descansa em paz.
- O que foi a vida pra você? Pra mim foi um momento de conhecer a pessoa mais especial do mundo: você!
- Eu sempre te adorarei.
- Não saia da perto.
- Seu riso foi o mais lindo que já vi e sempre será. Leva contigo esse beijo e essa flor.
- As amizades são eternas; espero te encontrar lá.
- Meu filhinho, meu amorzinho, meu bebê, fica comigo, não sai daqui, o meu filhinho, eu te amei, mas que queria mais ,eu queria te abraçar pra expressar o meu maior amor. Meu filho, gritou a mãe de Marcos; meu bebê fica,fica, gritava desesperadamente; fica, fica, o desespero de uma mãe fizeram as lágrimas mais freqüentes, os soluços mais altos.

E o caixão foi coberto por terra ao som das lamentações sem palavras, das lágrimas sem amparo, das súplicas não atendidas. E iam se retirando uns aqui , outros ali, Nara foi numa dessas levas e atráz foram os amigos antes citados de Marcos. Nara sentia que estava sendo seguida , desprezou; continuou a andar e ainda sentia a mesma impressão. Virou se e encontrou a turma que a encarava com ódio.

- Sua filha da puta!, disse um.
- Filha de uma assassina, disse outro.
- Minha mãe não é nada disso, retrucou Nara, a verdade é que a mãe de nara se safaria pois era advogada criminalística e conseguiria convencer o juiz.
- Sua desgraçada a culpa foi tua!, disse mais outro e cuspiram na cara de Nara.
- Vagabunda doente - outro cuspe chegou na cara de Nara, e vários foram se acumulando e escorrendo no rosto dela. Até um ponto em que alguém deu um tapa em sua cara, depois vieram outros; tentaram jogá-la no chão, Márcia interrompeu.
- Ei parem! Marcos não gostaria de ver-nos tão possuídos de ódio a ponto de maltratar ela, repreendeu os outros amigos; mas você - apontou para Nara - não pense que que eu te salvei por misericórdia, eu te odeio, e então cuspiu no cabelo de Nara.

Nara viu os amigos irem embora se levantou e foi em direção á sua casa.

CONTINUA...

sábado, 19 de janeiro de 2008

[cap. 8]

O mais importante era entender porque Nara se manteve estática. Uma intensa onda de ansiedade misturada com um descontentamento marcou aquele momento. Seria pelo fato de ser confrontada pela sua mãe, ou pela simplicidade em si da situação? E o que foi engraçado? Quase nada; o que foi desastroso? Grande parte.

A maioria dos pais acredita que a iniciação sexual do seu filho será a qualquer momento menos o que eles esperam, para falar a verdade eles nunca desejam isso. A vô de Nara descobriu que sua filha tinha transado quando a viu chegando em sua casa. A mãe de Nara chegou com uma marca roxa em cima do pescoço, lógico: qual mãe não perguntaria e desconfiaria da filha?

- O que foi que aconteceu com o teu pescoço?Perguntou a vó de Nara quase atônita.

- Uma barata me chupou, disse a filha desconcertada. A mãe de Nara tinha acabado de chegar de manhã na casa. O que ela pensou quando disse isso? A vó de Nara riu até tornar-se severa e começar a xingar a própria filha.

- Sua puta desgraçada, o que é que tu fizeste? Saiu pra dá o cú? Não me dissestes que iria estudar? A briga continuou.

E como todas as cenas que aparecem num presente qualquer essa seria uma normal reprodução. Quando a mãe de Nara chegou em casa estava se sentindo mal. Ela trabalhava o dia todo como já foi citado e não esperava passar mal e nem Nara. Afinal de contas desde quando uma mulher de 37 anos transa com um homem esquecendo de usar camisinha e jura que não vai engravidar? Então ela estava se sentindo mal e não entendia porque; pediu para ser liberada para ir a casa; só esperava encontrar uma cama e um banheiro pra vomitar. Ao chegar encontrou a porta da casa aberta, estranhou; subiu as escadas em direção ao seu quarto e foi quando ouviu umas fungadas estranhas dignas de noites de sexo. Foi conferir. Basta dizer que ver a cena proposta era de assustar qualquer ingênua mãe.

Nara se manteve estática por somente 5 segundos, mas afinal o que faria ela enquanto uma língua úmida estava mo meio de sua perna? Até quando sua mãe deu o grito antes descrito aí sim conseguiu se mexer.

- O que é isso? Perguntou outra vez.

- Mãe...

- Filho da puta.

- Não, gritou Nara e viu sua mãe avançar para um garoto que estava nu e um momento antes se masturbando. Quando sua mãe chegou perto dele para enchê-lo de pancadas ele teve o clímax, e infelizmente para mãe de Nara, o líquido espermático foi atirado na roupa dela e em sua cara.

A mãe de Nara não se esforçou tanto para avançar; Nara nesse momento estava tentando colocar uma roupa e quando menos conseguiu colocar a calcinha viu sua mãe avançar em fúria um pobre menino nu sem ninguém para ajudá-lo e vê-lo ser atingido por uma tesoura. Nara depois de ver avançou em cima da mãe para tentar pará-la; não conseguiu. Tarde demais. O que é uma tesoura na garganta se um ser humano? Morte.A morte foi o símbolo daquele momento, e como nas cenas clássicas de assassinato, havia quem chorava havia quem estivesse pasmo; havia um sangue formando uma poça; havia o instrumento que fez o ato; havia lágrimas, havia arrependimento; havia horror, havia dores; havia o ultimo suspiro de vida, e umas últimas palavras:

- Nara eu te odeio, o Pedro disse..., foram as últimas palavras de Marcos, foi a sua última expressão, foi o seu último suspiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

[cap. 7]

Se tinha um pensamento na cabeça de Nara depois de toda experiência que teve com aqueles adolescentes ele era "bando de filhos duma puta!". Pelas diversas vezes que ela pensou em Marcos nunca o imaginaria daquela forma torpe. Afinal de contas em que mundo ela vivia? Perguntou-se a si mesma. Será que estou atrasada? Será que o sexo evoluiu e eu continuo no papai-mamãe de sempre? continuou. Mas a verdade era que suas metas em relação a sua vida sexual estavam sendo desafiadoras a ela mesma.

Enquanto estava sozinha em casa, Nara ficava no seu quarto às vezes imaginando, ou criando ou fazendo nada. Na verdade o quarto de Nara representava o refúgio de todas as ciladas do mundo, e de ciladas não se descartava aquela que tinha acabado de ver. Pela sinceridade dos fatos Nara não repudiou de imediato aquela demonstração de sexualidade, ela gostou daquela orgia e de como os seus colegas curtiam as suas particulares festas. Porém Nara interiormente também repudiava, fosse pela educação que teve ou fosse por algo que ela mesmo desenvolveu sobre o sexo.

Tudo silêncio no seu quarto, Nara sentada na cama sem fazer nada; a campainha tocou. Com dificuldade Nara desceu as escadas foi até a porta enquanto seu joelho latejava de dor. Quando abriu a porta tomou um susto. Era Marcos. Eles subiram para o quarto de Nara e ficaram conversando.

- Porque você fugiu ontem, perguntou Marcos; o que aconteceu?
Nara o olhou com um olhar que dizia "será mesmo que precisa perguntar", e mesmo assim Marcos não a entendeu.

- Como assim? Primeiro você me trata como se eu fosse uma louca que te persegue na escola e quer atenção, depois tu me convidas para uma festa em que não consigo nem me ver nela, e logo depois ainda pergunta " O que aconteceu?", e olha só, apontou para o joelho esfolado, machuquei o meu joelho saindo correndo daquela coisa lá.

- Não era preciso tudo isso.

- Como assim?

- Nara, olha, eu pensava que você fosse mente aberta e que não se importaria com o que fazemos. Nara percebeu que ele falava com sinceridade e realmente foi ingênuo ao pensar nela daquele jeito. Dizem que a paixão quebra as barreiras da ética e foi supostamente a justificativa para o que Nara iria faria. Ela se empatizou com toda a idéia e se considerou uma menina de cabeça aberta.

- Na verdade eu gostei, tentava convencer Marcos; eu só não sabia como reagir naquela hora principalmente sem ter sido avisada antes do que se tratava. E ela chamou a atenção de Marcos nesse momento. Ele começou a passar a mão no corpo de Nara, apalpou seus seios, beijou em sua boca, direcionou a mão dela em direção ao seu pênis que já estava rijo.

- É verdade é ? Nesse momento Marcos colocou a mão por dentro do shortinho de Nara, e logo já estava colocando a mão por dentro de sua calcinha. Tocou a vulva dela.

- Não posso transar, disse Nara.

- Eu trouxe camisinha, completou Marcos e foi flechado por um olhar de repreensão de Nara. O que foi? Não deveria estar preparado.

- Sim, mas deixa pra lá. Eu não posso porque meu joelho dói, enquanto falava Marcos massageava o clitóris dela. Ele está todo arrebentado e ainda não sarou quase nada.

- Não importa, eu faço sexo oral. Marcos tirou o short de Nara junto com sua calcinha abriu suas pernas e ficou admirando sua vagina como se estivesse apreciando um belo prato da culinária francesa. Começou beijando suas cochas, depois avançou para sua virilha, beijou seu clitóris, lambeu seus grandes lábios com uma delicadeza que Nara mais tarde classificaria como extrema experiência de prazer sexual, e continuou enfiando horas a língua , horas o dedo em sua vagina. Houve em momento em que ele fez como se fosse abaixar as calças para penetrá-la, mas logo foi reprimido com olhar de Nara.

Para muitos esse era o momento mais excitante que Nara estaria vivendo, e no decorrer do acontecimento ela estaria esquecida do tudo o que se passava no mundo ou mesmo do passado de sua vida. Era ouro engano pensar desse jeito. Nara atentava para uma bolsa que estava na cabeceira ao lado de sua cama, a bolsa que a acompanhou em sua jornada a casa do jovem que tinha a língua nesse exato momento em sua vagina.

Nara estava se esticando para alcançar a bolsa que tinha a faca - na sua cabeça a justificativa para o assassinato do adolescente seria que ela se defendeu por ele estar sendo estuprada - , Marcos estava fazendo Nara chegar ao clímax e gozar até sua mãe chegar e ver tudo aquilo.

- O que é isso?, gritou a mãe de Nara.

CONTiNUA...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Diálogo II

- Me diz quando é que vem?

- Vem o quê?

- Aquela pessoa que salvaria e me faria esquecer do que sou e vivo, que encheria o meu momento, e a promessa que de o amor é a salvação eterna, onde, quando, porque?

[Silêncio]

- Me diz o que vale isso tudo?

[A resposta foi um outro silêncio.]

- O que é irreal? Até que ponto é real? Quando é que o irreal se aproxima tanto que se torna real?

[O silêncio se mantinha.]

- Pelo o que vale viver? Pelo que vale lutar? O que o mantém? O que é o passado frente ao presente? Quem desafia quem? Onde encontrarei uma vida? Onde esconderei uma? E se houvesse garantia? E fosse sem garantia? Quem me responderá? Quem calará a boca que fala o inevitável? Quem sugará suas forças? Quem dirá o que se deve ser feito? Quem continuara? Quem dominará?

[Nessas horas o silêncio desconforta.]

- Se todo é substituído o que fazes aqui. E se tudo é o nada pra quê serves? Se a alma te aflige porque não a jogas fora? Se o encanto é uma droga porque aceitas? Se tudo é uma cilada porque continuas?

[O silêncio se manteve até ás horas em que as resposta gritaram sem serem ouvidas].

[cap.6]

Começo achando-a decidida demais. Mata uma pessoa na sua própria casa era uma situação meio inusitada principalmente se tratando uma assassina amadora como ela. Mas nada a conteve. Andava pelo entardecer daquele inesquecível dia, dia que marcou com muito ódio o coração de uma menina adolescentemente vivida. O entardecer, pensou ela, significava transição o que era combinante com a sua atitude, de uma vez por todas tomaria a frente do seu coração apaixonado.

Quando chegou a casa de Marcos, Nara se viu arrebatada pela áurea boêmica e foi se confirmando à medida que ela adentrava naquela festa. Lá estavam Marcos, Célio, Junior – os boys da escola –, Márcia e Cicinha – quase não se ouvia sobre essas meninas.

A festa na antiguidade foi um símbolo de celebração, um momento para celebrar as colheitas, a vida , os deuses, e toda a gama de coisas boas que naquele período preenchia a existência daqueles seres humanos. Quando nos deparamos com o período de Nara vemos que a festa deixou de ser um momento de celebrar a vida – para a maioria – e se tornou um escape para a pobre realidade daqueles jovens. O modo que usavam substâncias alucinógenas como as alcoólicas e narcóticas demonstra a cultura fugaz daqueles humanos. Nara de cara sentiu um cheiro forte de maconha antes mesmo de chegar perto do grupo; atentou também para o excesso de bebida disponível.

Nara pensava que estaria sozinha e que a festa seria ela, mas ao ver todos ali ficou quase chorosa – ela realmente gostaria de matar aquele desgraçado. Estava começando a se retirar quando a festa se tornou interessante demais.

A música estava alta demais e enquanto aqueles jovens compartilhavam a maconha Márcia se afastou do grupo e começou a tirar a parte de cima da roupa, tirou o sutiã e Cicinha a acompanhou. Nara observava de longe, parece que ninguém percebeu a sua presença. O tira-tira de roupa continuou até todos estarem sem roupas e começarem a se beijar, a se agarrarem, a transarem.

Nara ficou pasma ao ver aquela demonstração de “perversão” como disse ela mesma, mas isso não a impediu de admirar. De certo modo ela gostava de observar, ao mesmo tempo em que repudiava a participação. Sentia um estremo calor ao ver Marcos sem roupa, assim como almejava penetrar seu corpo com a faca que trouxe.

E continuava a observar até que Célio a viu, falou para todos que tinha uma observadora; todos olharam para ela. Marcos a chamou, “nem pensar” disse para si mesma. Ao perceber que ela não saia do lugar os meninos trataram de ir busca-la a força. Nara se espantou ao ver três musculosos meninos nus e de pênis ereto se aproximarem dela com o intuito de a possuí-la, mas por dentro ela pegava fogo, queria tirar toda roupa e deixar-se ser levada pelo excitamento daquele momento. Mas correu. Correu com medo. Correu desejando nunca mais ver nenhum daqueles meninos e até as meninas. Desejou mata-los também. Desejou, até tropeçar e se arrebentar no asfalto. Tinha corrido rápido demais e sem se perceber Levou uma queda que fez o seu joelho esfolar. Aí sim. Como desejou matar aquele desgraçado do Marcos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

[cap. 5]

Nós observávamos a visão de uma jovem imatura, atentávamos às suas peculiares ações e descobríamos mais de suas mazelas.

Nara continuava a idealizar, sempre se predispunha a concorda com o que lhe falavam; continuava a alimentar sua vida cheia de encantos e ainda esperava que isso fosse completado pelos outros. Falando em outros, devo-lhe aqui um pequeno comentário: Marcos, acreditava ela, seria uma das colunas que sustentariam sua prévia felicidade; também acreditava que suas amizades a levantariam e a fariam dominadora de sua vidinha.

Foi quando ela se viu diante do seu amado com uma postura totalmente insensível que ela repensou. Deixe-me resumir: Nara estava na escola e se aproximou com a maior intimidade a Marcos, ele estava cercado de amigos, ela o abraçou pela cintura e ela a censurou como se fosse uma mendiga.

Não se sabe quando uma mulher pode se tornar amargurada, ou como ela vai reagi enquanto está amargurada, ou quando vai parar de ser amargurada, e para Nara, com muito prazer e rindo por dentro de mim, descrevo como essa menina reagiu a esse acontecimento: chegou em casa se prostrou em sua cama, quase chorou, levantou-se olhou-se no espelho, viu a marca da rejeição nas linhas que o estresse desenhava em seu rosto; sentiu-se como aqueles bolos de bosta de cavalo que se encontra por aí nas ruas, evitou chorar de novo; pensou como tinha sido bom ser tocada por Marcos, como tinha sido bom adormecer em seus braços, como tinha sido bem ouvir sua ofegante e quase incansável respiração, como tinha sido bom se sentir abraçada pelos seus braços por bastante tempo, como tinha sido bom ter sentido seu copulador entrando e saindo, mas - como me alegro em dizer-lhe - , ela decidiu que seria muito melhor sentir um objeto perfurante, qualquer que fosse, entrando e saindo do lindo corpo de seu ex-amado. A satisfação, aquela velha satisfação preencheu seu corpo.

Foi a cozinha pegou a faca que tinha as cerras mais pontiagudas, encheu-se coragem e se aprontou; colocou a faca em uma de suas bolsa e ficou sentada na cama esperando uma justificativa de si mesma para não fazer o que planejava. O telefone tocou. Era Marcos a convidando para uma festa particular em sua casa e acrescentou dizendo que não deveria levar ninguém.

Nara encheu de alegria e pressuponha-se que ela finalmente encontrou uma justificativa para acabar com seu maligno plano, que o veria e o perdoaria pela sua infantilidade e imaturidade, que iria encher a cara para esquecer de um minúsculo e ridículo problema, que seria aquela velha réplica de sua apática mãe.

Não, definitivamente Nara não seria a patética de sempre - repito não se sabe quando, como e até onde uma mulher amargurada vai.