A época em que Nara vivia estava caracterizada, pelo menos naquele momento, pela benevolência excessiva das pessoas. De certo modo aquilo influenciava o modo que Nara via a atmosfera que a cercava. Era um momento diferente do todo ano; era um momento especial; era natal.
A áurea circundante causava extrovertimento; as pessoas saiam ás ruas tratando aos próximos de modo apaziguador, afável. Era um tempo, um dos únicos do ano, em que as pessoas se desarmavam e compravam a idéia de que seriam melhores.
Então encontrava-se Nara, naquela labuta; vivendo passivamente, esperando pelo nada.
O ano transcorreu inusitadamente: seu pai foi-se por uma atitude impulsiva e inconseqüente sua; tinha quebrado o gelo da timidez de seu avassalado amor por Marcos. Digo que esperava pelo nada porque se omitia quando boas oportunidades apareciam a ela. Mas esse momento era diferente; era Natal.
Primeiro um feliz natal não existia para a família daquela menina; seus únicos parentes, seu pai e sua mãe, nunca cultivaram o clima natalino; seu pai um bêbado, sua mãe uma reclamona; agora não seria diferente, nem um pouco, tinha matado seu pai, e sua mãe... Onde estava sua mãe?
Então Nara atirou-se num natal desses aí, consideravelmente natalino.
A festa de Nara se passou na casa da Cicinha, e junto com essa anfitriã, a sua amiga inseparável,
Márcia. Delas falarei no próximo capítulo.
Como aquilo encantou Nara. Era magicamente aconchegante. Era lepidamente real. Foi um momento rico; enquanto ela se deliciava com a atitude de viver o máximo de sua solidariedade ela decidia lutar; enquanto observava os encantadores sorrisos das pessoas ela decidiu passar a amar; enquanto participava da conversa de histórias familiares engraçadas ela se perdoava. Enquanto era Natal ela se amava.
Segui-se a noite, permeada de benignidade, sem indiferença, sem desgraça.
A hipocrisia era a aula diária dessa sociedade, ensinavam veridicamente, debatiam eloqüentemente; viviam eficazmente a hipocrisia. Mas deixa pra lá.
É Natal.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
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